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De Montreal chega-nos este mais do que aclamado quinteto, onde o casal Win Butler e Régine Chassagne se eleva com a enigmática, reveladora e mágica passagem de um testemunho que transforma “Funeral” num dos álbuns do ano, com direito exclusivo a entrar nos tops mais preciosos: os pessoais, não o das publicações online ou em papel.
“Funeral” não é sobre um fim, mas talvez sobre uma passagem. Sobre a transmutação, se quiserem. A mudança. As cinzas queimadas que recolhemos para reconstruir o que muitos poderiam achar perdido para sempre.
O fantasma da morte assola vários familiares de membros da banda. O fim parece mais perto. A morte está tão perto. Está mesmo ali. À espera. Um dia... Mas os Arcade Fire transformam toda essa experiência pessoal dolorosa (em conjunto com um legado musical nostálgico) e oferecem-nos uma declaração de recolhimento, reencontro e progresso, bem amadurecido e, sobretudo, corajoso.
Com toadas operáticas, élans teatrais, subtis acertos electrónicos, letras vindas de dentro... é total a ambivalência entre o negrume e a luz, desde a faixa de abertura (onde a palavra túnel se encontra escondida e ilustra tanto uma sensação de imersão no escuro, a dada altura, como de aproximação à luz e à libertação, por outro) até “Une anée sans lumiére”.
Podemos encontrar similares sensações nos Radiohead, onde tanto damos por nós a rejubilar como de repente moribundos por uma terra de sons inóspita e agreste. Mas os Arcade Fire ripostam aqui ao fim com o melhor argumento para não cedermos: o amor, o amor à vida, aos mais próximos ainda juntos de nós, ao que mais gostamos de saborear.
Se nalgumas tribos africanas a morte de um parente é celebrada faustivamente, pela partida para um mundo melhor, aqui parece que a banda antes pretende apenas dizer que mesmo havendo um fim tal não signifique que não possamos gozar ao máximo e apaixonarmo-nos sem limites.
Musicalmente a enlevar-nos, elevar-nos e nunca sem prescindir de um passo em frente da nossa parte, “Funeral” é uma das mais apaixonadas, sinceras e mágicas declarações musicais jamais escritas, onde tudo se resume, afinal, a dizer “estou aqui, pois bem, deixem-me aproveitar enquanto dura; isso é que importa”.
Aproveite também.
Ricardo Jorge Tomé
Álbum foda, o som é de primeiríssima, altamente recomendado!
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