segunda-feira, outubro 24, 2005

Como foi

Um fim de semana histórico. Poderia ter sido histórico por vários motivos: o set do Nedu Lopes no Kraft (que foi um dos mais legais que já vi ao vivo), o bicão do ano sábado com o Douglão (festa boa e de graça hehehe), mas o principal foi a vitória do não no referendo.

Neste belo domingo de sol, este bloguista, aceitando o alvitre da Justiça Eleitoral fez-se membro da mesa receptora da Zona Eleitoral 34, seção 123. Na prática foi mais um dia fatidíco, porém garantiu uma relação próxima com esta que foi a primeira consulta popular acerca de armas no Mundo. Haviam os dois lados: o SIM, que jogou pesado com apoio da Globo, Governo e PT, e o NÃO que contava em sua frente parlamentar com figurões como Fleury e Jair Bolssonaro.

Desde as primeiras pesquisas apresentadas a vitória do SIM (que foi associada como a vitória "do bem") era clara. Logo após as exposições gratuitas das frentes parlamentares, ardilosamente eram apresentadas reportagens de cunho imparcial demonstrando que "mais um acidente com arma de fogo ceifava a vida de um jovem em algum lugar do país", artistas, músicos e Globais de toda estirpes aliavam-se pela "paz". Enquanto isso a campanha do NÃO, ainda que precária se compara à do SIM, tentava demonstrar a fragilidade dos argumentos não-armamentistas.

Fez-se o caos, de uma hora para outra os brasileiros tornaram-se PhDs em violência e armamentismo e travavam discussões ferrenhas sobre o tema do referendo. Ainda que na grande maioria destas discussões os argumentos fossem muito mais sentimentais do que racionais. O assunto do momento era este, nas televisões, rádios, revistas, mesas de bar, internet, enfim, pelos quatro cantos do Brasil a população discutia sobre as armas, ao invés de limitar-se ao tema de sua comercialização.

Durante este entrecho surgem milhares de teorias conspiratórias como: operação cortina de fumaça (ignorando que a idéia de referendo data do governo FHC), Globo aliando-se a austriaca Glock para construir a maior empresa privada de segurança do país, Bancada da Bala sendo sustentada pela Tauros, golpe esquerdista, possibilidade de genocídio da população, etc... Faltava informação e sobrava a desinformação.

Até mesmo a revista Veja surpreendeu alguns, deixando de lado o "politicamente correto" adotados por outros veículos, assumiu uma postura ostensiva de defesa pelo NÃO. Deste modo o não ganhava apoio e direciona sua campanha de forma a posicionar o NÃO como um voto de oposição e crítica ao governo. Somado a isto, falva-se em "tomada de direitos", e grandes jurisconsultores alegavam e ensaivam sobre a suposta inconstitucionalidade da proibição.

Além disso o NÃO era fortemente comentado em correntes de e-mail, contando até com a ajuda do trote plantado pelo MrManson do Cocadaboa.com o qual levavam as pessoas a crer que o suposto traficante Xaxim era a favor do sim.

A votar pelo NÃO haviam os "reacionários", extremo-esquerdistas e suas companhias, já pelo SIM estavam os politicamente corretos, grande parte dos "jovens revolucionários". Este últimos um caso extremamente excepicional, alegavam ser contra pois não podiam compactuar com algo defendido por Fleury e Bolssonaro, porém diziam-se ser da teoria "é proibido proibir" e anti-globo, vai entender, né?

Durante as últimas semanas ocorreu uma virada histórica e o NÃO passou a frente. E no domingo acontece a confirmação, até a 01:23 de hoje o resultado era o seguinte:

NÃO - 58.859.726 (63,90%)
SIM - 33.259.057 (36,10%)
EM BRANCO - 1.325.851 (1,39%)
NULOS - 1.599.037 (1,68%)
COMPARECIMENTO - 95.043.671 (78,20%)
ABSTENÇÃO - 26.501.618 (21,80%

Uma consulta democrática a qual representou um tapa na cara as autoridades que representam o país hoje. Uma demonstração de que o poder de influenciação das massas não é tão forte quanto parece. Cabe a nós agora analisarmos o resultado deste referendo. Em todos os estados brasileiros o NÃO venceu o sim com a maioria dos votos. Apenas duas cidades relativamentes grandes o SIM superou o não, foram Diadema, o sim teve 112.714 votos (50,22%), enquanto o não registrou 111.713 (49,78%) e uma outra em Pernambuco a qual não me recordo o nome.

Os estados em que o SIM estive mais próximo do não foram: Pernambuco, Cerá, Alagoas, Bahia e Espírito Santo, exatamente nesta ordem. Já estados como São Paulo, Paraná e Rio Grande Sul (principalmente) a vitória foi avassaladora. Torna-se curioso comparar índices de desenvolvimento destes estados, bem como índices de educação.

Deixa claro o referendo que a população não encntra-se disposta a outorgar ao Estado, ou a Particulares o seu direito de proteção. Caberá agora aos lideres discutirema segurança de forma ampla e concreta (empregos, saneamento, etc..). Afinal demonstrou-se claro que não serão leis de cunho imediatistas que satisfarão a vontade popular. Além disso brilhou no fim túnel uma luz para quem já havia perdido as esperanças de que o país não tinha jeito para lidar com a manipulação do seu povo.

Abraços.

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